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Autenticação

Marvila Velha e Poço do Bispo

 

Docas, elétricos, armazéns de vinho, a Fábrica Militar de Braço e Prata, os Fósforos, a Borracha, a Fábrica Nacional de Sabões, a Tabaqueira, muitas pessoas, muito movimento, harmonia, simpatia, amizade e ajuda eram algumas das características daquela que, agora é considerada a zona de Marvila Velha e Poço do Bispo.
Anabela Lopes de 52 anos, nasceu na Rua de Marvila, aqui viveu e começou a trabalhar nos armazéns Abel Pereira da Fonseca, onde está até hoje, apesar do abandono a que foi votado aquele espaço. Num pequeno snack bar, onde se servem refeições e onde “antes do 25 de Abril, era a cantina dos empregados destes armazéns”, Anabela contou ao Jornal de Marvila como foi a sua infância e, como era toda esta zona.
“As nossas brincadeiras, dos meus 10, 11 anos era bola, porque eram mais rapazes que raparigas. Íamos para trás do campo do oriental jogar, na altura em que o Oriental esteve no seu auge, em que subiu à primeira divisão – tinha eu 12 anos em 1973/74. Fazíamos corridas para competir uns com os outros, era muito bom, muito saudável e diferente. Era uma vida em comunidade, em que as pessoas eram amigas umas das outras, viviam os problemas uns dos outros, ajudavam-se uns aos outros”.
Destes momentos vividos em comunidade conta que “com uma telefonia ou gravador – porque o gira discos veio depois –, uma panela de sopa, um chouriço assado, fazia-se uma festa”. Os santos populares não se assemelhavam ao que vemos hoje “fogueiras na rua para as pessoas saltarem por cima, bailes e muita música”. 
Com saudade, Anabela levou-nos ao interior dos armazéns onde trabalha há 33 anos, onde pudemos ver e reviver, em conversa, o dia a dia de antigamente. “Aqui funcionava tudo, desde o engarrafamento, à armazenagem de vinho, produção de vinagre ou licores, como também havia armazéns de mercearia e minimercado. Chegou a ter 100 lojas na cidade de Lisboa, estabelecimentos Vale Tudo. Fechou, em 1993, quando trabalhavam aqui 236 pessoas”.
Agora restam as saudades, dos elétricos “que traziam outro ar ao jardim”, dos jogos do Oriental “a festa que as pessoas faziam, as excursões até ao campo, quando o clube subiu para a 1ª divisão”, da harmonia entre as pessoas, porque para Anabela, “havia harmonia entre as pessoas e hoje não. Hoje é o salve-se quem puder, é ver quem tem mais que o outro, é completamente diferente.” 
Nascida e criada no Pátio do Colégio, Luzia de 64 anos e peixeira perto da linha-férrea, recorda que “peixarias e mercearias não faltavam nesta zona, o Terras, o Cabral, o Sr. Santos, o Sr. Francisco e o Sr. Domingos”. Ao entrarmos numa das mercearias que resistem ao tempo e à crise encontramos o Sr. Nelson Santos, de 74 anos, que vive em Marvila há 71. Elemento de uma das 60 famílias que viviam no Palácio Marquês de Abrantes, recorda que a Rua de Marvila “não chegava para tantas pessoas, dum lado para o outro, quer à hora de almoço, ou ao fim do dia, quando saíam das fábricas que aqui existiam”. 
No meio de muitas lembranças contou ao Jornal de Marvila que “na Sociedade Musical 3 de Agosto, dentro do Palácio, havia uma zona onde as mulheres lavavam a roupa, em selhas com água que iam buscar ao chafariz”, mas que passado uns anos, quando se tornou diretor dessa mesma sociedade fez um pedido à Câmara Municipal de Lisboa que lhes emprestou “120 contos, para que pudessemos fazer tanques e um telheiro para os estendais”.
Juntou-se, entretanto à nossa conversa, Manuel Lança de 72 anos, seu amigo de infância que partilhou as brincadeiras que tinham, sendo do tempo do “pé descalço”, “jogávamos à bola no pátio do colégio, ao peão, ao arco – dos barris – com uma gancheta, ao berlinde, ao botão na beira do passeio, à tampinha”. Do outro lado do balcão a D. Ilda recorda esta zona da freguesia como “um paraíso”, mostrando-se triste por “estar tudo a fechar e Marvila já não valer tanto como valia”.
Perto da Sociedade Musical 3 de Agosto encontramo-nos com dois senhores que nos contam mais pormenores da história destas ruas da freguesia. Fernando Paiva de 74 anos e Joaquim Furtado de 65. Ambos nasceram em Marvila e aqui continuam a morar. Fernando, afirmando o seu amor pela freguesia “sou marvilense de gema e adoro o meu bairro, só tenho pena que esteja tão triste, sozinho e abandonado”. Sendo mais um dos antigos dirigentes da Sociedade perto da qual nos encontrámos, recorda que nos seus tempos de infância e juventude a zona de Marvila Velha e Poço do Bispo eram muito, muito movimentadas “havia trabalho para toda a gente, isto era uma loucura de movimento com todas as fábricas que havia aqui”. Da 3 de Agosto recorda os tempos em que havia cinema “comprámos uma máquina em segunda mão e aprendemos com um rapaz aqui da zona como ela trabalhava”, os tempos em que havia hockey em campo “jogávamos hockey aqui, no chão de terra e os limites em tábuas de madeira, eu era guarda-redes”. Dos momentos engraçados que viveu, conta-nos que “perto da doca do Cais Preto, havia um pequeno areal e uma vez eu e o meu irmão decidimos ir dar um mergulho, enterramos a roupa na areia para ninguém nos tirar e olhe, ainda hoje não sei onde está”. Como noutras zonas da freguesia, também aqui, no Palácio Marquês de Abrantes, existe a história da existência de túneis como nos contou Fernando “dizem que por baixo do palácio há um túnel que vai dar à estrada de Chelas, o acesso é ali atrás, no pátio, mas eu nunca lá entrei”. 
Joaquim Furtado, aqui continua a morar e a trabalhar, lamenta que os edifícios de traça antiga desta zona não sejam reabilitados “porque podiam trazer muito mais juventude para aqui”. Recorda a vida nos antigos pátios, como “eram um meio de aglomerado habitacional onde morava muita gente, muitos garotos, desentendiam-se, geravam-se conflitos de famílias e vizinhos, mas passados uns dias estava tudo bem porque as pessoas precisavam de um bocadinho de azeite, de pão e tudo era ultrapassado sem rancor”. Continua com um sorriso lembrando como “era engraçado entrar num pátio, no verão, todos sentados a falar duma porta para a outra, duma janela para a outra, com as crianças a brincar no meio, enquanto hoje, toda essa vivência se perdeu com os prédios, em que muitas vezes nem conhecemos o vizinho do lado”. Apesar do comércio existente continuavam a ver-se vendedores de porta em porte e, Joaquim recorda que “havia o Petrolino, a Língua da Sogra, o Chinês das gravatas e o Manuel Maricas”. 
Em tempos de muitas dificuldade fica na memória, guardado para sempre, o esforço da sua mãe – como para muitas mães da altura – em pagar um carrinho a prestações.
A morar em Marvila há 57 anos está o presidente da Junta de Freguesia de Marvila, Belarmino Silva. O Jornal não podia deixar de ouvir as suas histórias desta Marvila velha e, foi saber o que tinha para contar. “Marvila velha era o coração e pulsar da freguesia, tudo o que estava abaixo da linha do comboio era e, já não tem nada a ver com o que era há 25, 30 anos. Tudo isto, era só quintas e palácios senhoriais, onde os mais ricos vinham passar as suas 
férias”. Dos tempos de pequeno relembra que os seus passeios eram “com os meus pais, a pé, até perto do aeroporto ver os aviões levantar – era um acontecimento – porque, enquanto hoje há muitos, nessa altura, se calhar era de três em três horas ou mais”.
As brincadeiras todas muito parecidas com aquelas que já temos ouvido falar, deixam espaço para os jogos de bola na rua, “quando não cabíamos todos no pátio, vínhamos para a rua, porque os carros se contavam pelos dedos, passava o autocarro, mas apitava no início da rua, para nos desviarmos e tinham o cuidado de não pisar as nossas balizas que eram feitas de pedras”. Além do Clube Oriental de Lisboa, mais antigo ainda, era o Oriental Recreativo Clube, no antigo bairro chinês, “onde as pessoas podiam ir tomar banho ao fim de semana”. Do Poço do Bispo, conta histórias de uma zona “cheia de movimento dos trabalhadores”, os elétricos a passar e “o cinema piolho”. 
Despede-se do Jornal de Marvila, contando as partidas de Carnaval que se faziam na altura “no meio das meias, para fazer a bola de futebol, metíamos uma pedra e depois formávamos a bola com a meia de vidro por fora, quando chutavam lá ficavam uns quantos dedos partidos. Como todos os homens usavam chapéus, nós, com um fio que passávamos por cima dos cabos do telefone com uma mola, íamos atrás deles, fingíamos que tropeçávamos e metíamos a mola, eles continuavam a andar e ficava o chapéu pendurado. Depois colocávamos baldes ou alguidares de água em cima de portas e portões que, quando as pessoas abriam caíam em cima delas.” 
 
 
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Poço do Bispo, anos 70
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Armazéns Abel Pereira
da Fonseca, Antes
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Armazéns Abel Pereira
da Fonseca, Antes
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Interior dos armazéns Abel
Pereira da Fonseca, Hoje
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Anabela Lopes
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Sociedade Musical 3 Agosto, Hoje
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Nelson Santos
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Fernando Paiva
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Joaquim Furtado
 
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Primeira Marcha de Marvila
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Belarmino Silva